terça-feira, 20 de setembro de 2011

A Epopeia de Uma Bitoquinha Marota

 A CIDADE DE TOWNSVILLEEEEE.
 Brimks, é a velha, pacata, tosca e monótona Maricá de sempre.

 Eu era um adolescente juvenil (como já dizia Mestre Awey), infeliz por nunca ter beijado uma boca feminina antes. Um desespero intragável de qualquer menino com seus bons 12 anos. Todos à volta dizendo o quão bom era, o quão incrível era, o quão maneiro era, o quão ~insira adjetivo de sua preferência~ era. E estava eu lá, solitário. Esperando o momento certo para que aquele sagrado ritual começasse e eu me tornasse uma espécie de Johny Bravo maricaense. Ou não.
 Com a ânsia bate o desespero. Como fazer esta merda? Enfia a língua e roda? Dá uma chacoalhada? Pede informação? Treina na laranja? Me recusei aos métodos da laranja, do braço e da mão em concha por ter um senso do ridículo bastante apurado à época. Resolvi confiar na Força que todo bom Jedi encontra em si quando não sabe fazer algo e decide se arriscar somente pelo prazer de conseguir e provar que é foda. Ou de fracassar e dizer que é a primeira vez. Então, tudo começou.

 Ela era uma menina baixinha, pequena e extremamente delicada. Mas não era aquele delicada irritante do tipo das princesas que os vikings raptam e estupram como se rasgassem um véu de seda com cheirinho de canela. Era um delicado interessante. Não era bonita e nem feia, era ela. Normal e simples, como só mulheres que não são bonitas e nem feias sabem ser. E que fique claro que, se fosse um mastodonte demoníaco chupando limão com cana e assobiando eu diria, pois seu nome não será revelado.
 Tinha cabelos negros e a pele morena. Olhos amendoados escuros e a aparência quebradiça das porcelanas (manja, broto?). Eu, naquele momento infeliz, tinha os cabelos penteados forçadamente, com um aspecto BELÍSSIMO de assolan. Vestia sempre a mesma camisa do System of a Down e a calça jeans com um buraco no calcanhar (resultado de pisadas consecutivas e uma irritação por encher a casa de terra toda vez que entrava). Traduzindo: eu não era nem um pouco apresentável. Apesar de tomar banho todos os dias, tinha uma aparência de grunge (não falei que grunge é sujo, pelamor) e isso não é um atrativo para as meninas a não ser que você se assemelhe a um surfista californiano e tenha sobrenome Cobain. Logo, era inimaginável. Achei que permaneceria com meus carnudos lábios (eita) virgens até a minha velhice.

 Em um daqueles papos miseráveis de pátio escolar, revelei à moçoila que, em um mal entendido, uma menina de nossa sala (que possuía um odor desagradabilíssimo nas axilas, vulgo cêcê) achou que eu estivesse apaixonado por ela. Isto por meio da beleza de palavras que proferi, palavras estas que repeti à moça que me ouvia contar o causo. Ela, em uma interjeição respiratória digna de princesas, disse:

 - Ai, acho que se alguém fala uma coisa dessas para mim, eu gamo.

 Amigos, não precisa ser um Newton para saber que isso foi uma cantada (mentira). Começamos a conversar mais assiduamente e mostrei à ela mais alguns textos, os quais ela lia e adjetivava soberbamente. Eu inflava de orgulho e voava mais alto que o padre dos balões, mas, aquele toma-lá-dá-cá incitou em meus amigos próximos a exigência pokémon que todo garoto conhece. "Tem(os) que pegar".
 Mas como? Com a boca sem estreia em bitocas, era impossível traçar uma estratégia forte até à menininha. Mas fui como deu, empurrando com a barriga, trocando pés pelas mãos e colocando o carro na frente dos bois. Sobretudo usando trocentas expressões populares que tornam a encheção de linguiça mais branda.
 Chamei a donzela para uma conversa no anfiteatro da cidade. Era uma manhã fria de algum dia da semana que meu cérebro fez o favor de esquecer. Eu esperava estalando nós dos dedos, pescoço, vértebras, costelas e qualquer coisa que fizesse um som e apaziguasse a porra do nervosismo. Ela chegou, leve, saltitando como um veado campeiro e juntou-se a mim no topo da edificação. E AÍ AMIGOS...




 ...não deu em nada. Travei com uma habilidade incrível. Quedê cantadinha marota? Quedê malandragem? Sumiu. Parecia gato de rua. Ela era tão escorregadia que eu achei que não quisesse (bobinho) e acabei adiando uma vez mais a conversa decisiva.
 Após a escola, prossegui para a mesma praça onde se localiza o anfiteatro. Palhaçadinhas, gente deixando a gente sozinho, "beija beija" e aquela caralhada de coisas que você menos quer que aconteça. Acabamos (não me lembro e não bebi nada) indo novamente para o anfiteatro. Desta vez, o papo foi mais direto. Ela escorregava e eu tentava segurar (caso fosse um banheiro de penitenciária, seria algo infeliz), ela fugia e eu corria atrás. Até que, em uma falha miserável que deu certo, disse para que ela me respondesse amanhã. E saí triunfante (e idiota) indo em direção à rodoviária.

 Dia seguinte, tremendo como vara verde (varas de outras cores não tremem, aprendam), novamente houve uma conversa no anfiteatro. Novamente nada de atitude. Comecei a achar que fazer as coisas de manhã não era o correto, ou Deus me sacaneava como nunca. Desci o anfiteatro e um irmão de um primo meu proferiu a frase que feriu o ego do jovem guerreiro:

 - Ih, não teve nada? Tá fraco, hein.

 Senti Odin segurar minha mão e ouvi sua voz incitar o ódio. Sorri um sorriso amarelo e fui para a escola, sentindo a chama da vitória iminente explodir meu peito. Fiz uma prova e fui convidado por alguns amigos a ir até uma lan house (em voga na época) para fazer sabe-se lá o quê. Fui. Ela estava junto, obviamente. No grupo havia um casal arranjado por mim. Thayane e Paulista. Eu havia dito à ela que ele queria dar uns pegas e acabaram namorando. Paulista, percebendo minha inquietação e demora, articulou um plano digno de Napoleão que não deu espaço para fugas.
 Ao acabar o tempo de todos na lan house, descemos por uma escada. Eu era o penúltimo e a menina, a última. Ao tentar cruzar o portal de saída, fomos interrompidos por Paulista com uma célebre frase:

 - Ah não, cara. Agora vai.

 E saiu. Eu andava sempre com fones de ouvido, mas sempre mesmo. Estava com eles naquele momento e Tentative do SOAD retumbava, ensurdecedora. Olhei em seus olhos e, como bom adolescente demente, disse:

 - E agora?

 Ela teve a bondade de responder:

 - Ué, vai ficar aí parado olhando para mim?

 Não, não fiquei. Em câmera lenta, com um ar de Casanova e destruindo tudo, eu fui. Serj Tankian berrando no meu ouvido e eu consegui. A beijei. Como imaginei, aquela porra de laranja ou treino com a mão não adiantaria. A Força esteve comigo. Uma lascada de dente aqui e outro erro ali, mas nada que interrompesse a glória do triunfo. Saí com o peito mais estufado que um pombo com Doença de Chagas. Paulista olhou, sorrindo maliciosamente, e disse:

 - Foi, né?

 Balancei a cabeça rápida e afirmativamente. Ele comemorou. Dobrei a esquina e dei tchau. Cocei o saco, cuspi no chão e andei como um homem. Não teria mais problemas assim. Não desse tipo. Era outro nível, manolo.

 Mais tarde, na rodoviária, encontrei o irmão do meu primo. Ele me cumprimentou, sarcástico. Com toda a glória que Odin proporcionou, olhei para ele e proferi a vingança verbal:

 - Lembra daquela parada, cara? Pois é. Lembre-se que um dia tem 24 horas.

 Com esse desfecho à la Jack Bauer eu peguei meu ônibus. E fui feliz por uma semana.


 Beijo do magro.