Bem, sob influência de um vestibular derretedor de mentes e um descanso cerebral tedioso, venho a este blog contar peripécias de uma vida que não é tão legal assim, mas deve ser registrada para que meus netos possam ter, ao menos, vergonha de mim. Hoje o assunto é uma bebedeira antiga, porém épica, ocorrida nos idos de 2009 (uma das primeiras).
Tudo começou com uma mania minha de querer dar uma de fodão nos grupos. Na época, eu tinha lá meus feelings headbangers e queria agradar à galera do mal. A música eu curtia mesmo, não era modismo. Aliás, até hoje ouço bandas como Dimmu Borgir do mesmo modo como minha mãe aprecia Belo, ou um Lorde inglês do século XVII apreciava óperas. Porém, este não é o foco. Por pensar que não me encaixava em nenhum maldito grupo, me enfiei naquele (mesmo sendo magrelo e usando óculos) com minhas camisas de banda e minhas correntes. Um allstar preto de couro completava o look "mamãe sou do metal". Minha mãe dizia que era de época, eu afirmava que seria para sempre. Não errei, continuo com o "révi mérou" na veia, mas agora desenvolvi um certo senso de ridículo (ou não).
Era uma noite de sexta-feita, monótona como todas as outras noites de sexta-feira em uma cidade microscópica. Cidades assim me fazem acreditar que, como dizia Stephen Hawking, existe um universo em uma casca de noz. A minha cidade é uma casca de noz para algum gigante, só não entendo porque ele não pisa logo nesta bosta. Chega de divagar (trocadilhos com devagar incoming), saí da escola na minha caminhada habitual até a praça que se encontra exatamente no centro da cidade, que, por falta de criatividade e preguiça, é um bairro chamado Centro. Encontrei lá os amigos habituais, não nomearei todos, apenas os importantes à narrativa: Júlio e Pedro.
Nada para fazer, sexta-feira, filosofias (?) na cabeça. Pedro, trabalhador e independente, infla seu tórax e diz:
- Pô, vou comprar um vinho.
Júlio, manguaceiro nas horas vagas, retruca:
- Ih, bora lá - virando-se para mim - Vamos, System? (uma de minhas alcunhas)
Eu não tive muito tempo para pensar em minha mãe apertando minha traqueia e depois arrancando-a com a própria mão do meu pescoço, então, aceitei no impulso. Fomos ao mercado, os dois andaram um pouco e compraram duas garrafas de vinho. Eu era o único menor de idade do grupo mas, quem liga? É uma casca de noz, não me surpreenderia se visse um senhor de engenho andando por aqui. Bem, deixamos para trás os olhares ameaçadores da mulher do caixa (eu tenho medo de mulheres do caixa) e seguiu-se um diálogo à porta do supermercado:
- Vamos levar para lá? - perguntou Pedro, referindo-se à praça.
- Não, cara, vamos beber uma aqui e ir bebendo a outra. - disse Júlio Félix, O Sábio.
- Isso aí - disse eu.
Aliás, eu até falava mais coisa e do jeito que eu escrevi parece que eu apenas balançava a cabeça afirmativa ou negativamente. Todavia, a minha parte do diálogo ainda não vai enriquecer o enredo, então, eu as corto. Voltando à narrativa, decidimos que seria feito deste modo: abrimos uma garrafa e começamos a beber vagarosamente. Quando havia metade da garrafa, eu (para exibir toda a minha foderasticidade) virei o restante todo. Olhares surpresos alimentaram meu ego e fomos nós à próxima garrafa.
A divisão parece pequena, mas foi bastante vinho para cada um. Sorvi de mais uns bons trinta goles da bebida do demônio (até engasguei em um momento, porém, disfarcei como todo bom sir) e chegamos de novo à praça. O povo de sempre reunia-se em uma mini ponte que atravessa um lago. Bem... Sabe aquele estágio do Mortal Kombat onde o Fatality consiste em jogar o oponente no ácido com um gancho? O mini lago é isso aí. As pessoas estavam sentadas nas bordas da subida desta ponte. Pediram um gole, mas o Pedro, O Bebedor, virou o restante, deixando todos com a cara de fuinha iminente a todo adolescente que quer mostrar para os outros que bebe.
Olhei meu relógio e alarmei:
- Júlio, tá na hora do ônibus.
Júlio, O Alegre, respondeu:
- Ih, verdade. Vambora, Pedro.
Cumprimentamos os fulanos ali vagabundeando e iniciamos uma curta caminhada até a rodoviária. Júlio começou a sofrer uma espécie de surto reverso e dizer que beber era ruim, pois deixava as pessoas fora de si e causava uma espécie de carma espiritual (isso é comum em nossas conversas). Pedro, O Filósofo, prontamente respondeu que bebíamos por estarmos felizes, para comemorar a vida neste mundo imundo (uia). Jovens(relativamente, Júlio tinha 20, Pedro 22 e eu 15), cabeça oca, qualquer argumento filosófico e do estilo "THIS IS SPARTA" nos convenceria, mas aquele veio a calhar. E agora começa a história em si.
Chegando na rodoviária encontramos duas amigas, Bruna e Myllene, e depois seguimos até o banheiro desta construção. Júlio entrou sob o protesto de "precisar mijar urgentemente" e eu e Pedro desenvolvemos uma conversação que daria início às peripécias da noite:
- Porra, Pedro, não bebo quase nunca, achei que ia estar caindo pelas tabelas. - disse eu.
- Ah, cara, a gente bebeu pouco. Mas eu até que estou começando a ver uns brilhos nas coisas.
- Eu não tô... - força a visão - Eu acho que tá começando o efeito.
Dei um passo à frente e minha visão tornou-se um caleidoscópio. Tudo em volta era embaçado com um foco high definition no centro. As pernas não obedeciam. Cada uma ia para o lado que desejava e fazia o que queria. Júlio voltou do banheiro no mesmo estado. Rindo como se sua vida fosse dirigir filmes pornôs e comer lasanha todos os dias. O trio ficou no mesmo patamar e, não sendo merda o bastante, resolveu comprar mais uma garrafa de vinho.
Eu repetia a todo momento que minha mãe ia me matar, seguido de uma crise de riso e de um questionamento do porquê de estar rindo. Júlio cantava qualquer garota/ser/entidade que atravessasse seu caminho e Pedro... Bem, depois ele arranjou o que fazer. Paramos em frente à rua cujo bar era do outro lado. Pedro, O Bêbado Safo, atravessou like a boss e adentrou o boteco. Eu segurei no ombro do Júlio e falei:
- Cara, não tô a fim de morrer. Vamos no 3. 1... 2... 3... BORA!
Atravessamos a rua nos apoiando um no outro e rindo desgraçadamente. Ele entrou no bar e eu me choquei contra uma pilastra (que, aparentemente, não estava lá um segundo antes), ficando ali até que eles saíssem com a última garrafa de vinho da noite. Atravessamos a rua (agora no foda-se, se fosse para morrer, morreríamos ali mesmo) bebendo como bárbaros o vinho da garrafa. De repente, chegando ao outro lado, uma senhora nos pára:
- Meninos, isso lá é jeito de beber vinho? No gargalo? - disse a não tão distinta senhora.
- É - respondi virando mais uns cinco goles do líquido gelado e sem sabor.
A senhora fingiu não ouvir:
- Vamos ali no meu carro que eu tenho algumas taças. Vou ensinar vocês como se bebe com estilo.
Nós três rimos escaralhadamente. Uma velha queria traçar os três de uma vez, QUE ISSO AMIGOS?? Senti uma mão puxando meu braço e me levando em direção à fila do meu ônibus. Olhei para o lado e vi a Myllene me carregando, rindo absurdamente. Atrás dela, Pedro dava o braço à Bruna e pedia insistentemente para casar com ela. Chegamos à fila e ela me parou no lugar. Fiquei olhando para o chão e girando no meu próprio eixo, sem sair do lugar. Ao melhor estilo Michael Jackson quando se precipitava para frente e não caía. Pois é, amigos, eu não precisava travar os pés.
Do nada, a Myllene lembra-se de uma falta grave no plantel bebum:
- Cadê o Júlio?
Pedro, quase se engasgando em meio à risada, responde:
- Caralho, ele tá com a velha.
Amigos, eu estava fora de meus sentidos e comecei a rir como um chimpanzé tresloucado. Myllene me disse para ficar ali e saiu para buscar o Júlio. Vi o cara da frente na fila me olhar torto como se dissesse "Vai pro Inferno, hein" e todo mundo sumiu do meu lado. Logo em seguida surge o Júlio, rindo de orelha à orelha gritando para quem quisesse ouvir que "a velha quis me comer".
Implorei à Myllena que me empurrasse para fora do ônibus no momento em que chegasse, pois eu não via nada com clareza e ia ficar fodido e mal pago se não descesse em casa.
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